É comum e muito conhecida a
expressão de que um gesto vale mais do que mil palavras. Há toda uma comunicação
corporal que os outros leem em nós, e que expressa o que habita no nosso
coração. Mas também há uma certa ilusão em nós de que as nossas palavras ocultam
os nossos gestos, o que é completamente errado e, quando acontece torna-nos incoerentes
perante os outros.
Nós expressamos, exalamos, os
sentimentos que nos habitam e os nossos gestos são a expressão mais fiel desses
sentimentos. Quando experimentamos verdadeiramente o Amor, os nossos gestos
serão certamente também gestos de amor.
Mas antes do gesto ser para o
outro é primeiramente para nós. Cada gesto tem um significado profundo
primeiramente para nós. Até o gesto mais simples.
Quando estendo a mão para
cumprimentar alguém rompo o meu espaço de conforto e vou ao encontro do outro,
permitindo que no simples toque entre mãos o outro entenda que estou ali
naquele momento disponível para si.
Também na nossa vida espiritual os
gestos mais simples têm um significado profundo. Romano Guardin no livro “Sinais
Sagrados” através de uma linguagem simples mas tocante, fala-nos de alguns
desses gestos.
Partilho o seu pensamento sobre
aquele gesto que talvez mais vezes tenhamos feito ao longo da nossa vida
cristã, o sinal da cruz.
“Quando fizeres o sinal da cruz, fá-lo bem feito. Não seja um gesto
acanhado e feito à pressa, cujo significado ninguém sabe interpretar. Mas uma
cruz verdadeira, lenta e ampla, da testa ao peito, dum ombro ao outro.
Sentes como ela te envolve todo?
Recolhe-te bem. Concentra neste sinal todos os teus pensamentos e todos
os teus afetos, à medida que o vais traçando da testa ao peito e dum ombro ao
outro. Senti-lo-ás então a penetrar-te todo, corpo e alma. A apoderar-se de
ti, a consagrar-te, a santificar-te. Porquê?
É o sinal da totalidade, o sinal da Redenção. Nosso Senhor remiu todos
os homens na cruz. Pela cruz santifica o homem todo até à última fibra do seu
ser.
Por isso o fazemos antes da oração, para que nos recolha e ponha
espiritualmente em ordem; fixe em Deus o nosso pensamento, coração e vontade.
Depois da oração, para que permaneça em nós aquilo que Deus nos deu. Nas
tentações, para que Deus nos fortaleça. No perigo, para que Ele nos proteja. No
ato da bênção, para que a plenitude da vida divina penetre na alma, a torne
fecunda e consagre quanto nela há.
Pensa nisto sempre que fazes o sinal da cruz. É o sinal mais santo que
existe. Fá-lo bem: devagar, amplo, conscientemente. Envolverá então todo o teu
ser, corpo e alma, pensamentos e vontade, sentido e sentimentos, atos e
ocupações, e tudo nele ficará robustecido, assinalado, consagrado na força de
Cristo, em nome de Deus uno e trino”.
É no aqui e no agora, em cada
gesto simples que o Senhor se revela, primeiramente a nós e por nós aos outros.